20/09/13 | Opinião

Seria ciúmes dos nossos Festivais de Cerveja?

Desde que comecei a me envolver mais com cerveja, havia aquela sensação que as cervejas artesanais não eram devidamente divulgadas para o mundo. “Cerveja para as massas!”, pensava eu num sonho onde todos teriam acesso a cerveja de sabores e aromas diferentes do usual.

Já faz alguns anos que tivesse esse primeiro pensamento e o mercado brasileiro mudou bastante. O Festival Brasileiro da Cerveja e a Degusta Beer, parte da Brasil Brau, movimentam milhares de interessados em descobrir esse filão que são as cervejas artesanais, sempre apoiados pelos cervejeiros que estão ali, cuidando dos stands e tirando dúvidas de qualquer um que de disponha a parar por alguns minutos para conversar.

Então veio o lado negro da força…

beerfest-imdb

Foto: Reprodução do filme Beerfest

Como tudo que faz sucesso, as pessoas começam a trabalhar com uma superexposição do produto. Tentam colocar a cerveja em toda e qualquer oportunidade de negócio viável e tirar até a última gota de sangue do cervejeiro que quer divulgar seu produto.

Meu primeiro choque foi quando saí de casa, atravessei a rua e vi, em um ponto de ônibus, um banner GIGANTE do Mondial de La Bière. A festa que promete parar o Rio de Janeiro em novembro com litros e litros de cerveja importada.

É muito legal ter essa oportunidade aqui no Rio de Janeiro. Estou cansado de precisar viajar para experimentar as novidades do mercado. Só que a um custo de 4 reais pela cerveja mais barata, o festival não parece interessado que você aproveite toda essa variedade oferecida.

A título de comparação, no Degusta Beer, uma dose de 50ml para degustação chegava a custar R$1. Isso mesmo, UM REAL! Se considerarmos as proporções, a dose para degustação no Mondial será de 200ml, o que deixa menos espaço para outras degustações ou menos dinheiro para experiências, se a dose for menor.

No final, parece que a vontade é atrair o máximo de curiosos ao evento e entubar uma dose pequena de cerveja artesanal a preços maiores até do que estamos acostumados a reclamar. Os desavisados vão beber se achando os importantes, depois chegar em um bar e perceber o quanto pagaram por uma dose.

Já outro festival, o Beer Experiencie, abordou uma temática diferente. No início, duas edições atrás, de tratava de uma grande festa cervejeira. Acho que poderíamos considerar o primeiro grande festival no eixo Rio São Paulo, com carreatas saindo daqui para aproveitar o evento.

Na terceira edição, o evento parece ser muito mais voltado para as apresentações musicais que para a degustação de cerveja. Quer uma prova disso? O “curralzinho”!

Pra quem não sabe, o curralzinho é aquele lugar onde ficam as estrelas da Globo, convidados políticos e todo mundo que ganhou um ingresso para fazer figuração. Ele fica com uma visão privilegiada do palco, o que permite que esses convidados vejam melhor os shows. Perceberam que a cerveja nada tem a ver com isso?

Nesse caso, o curralzinho dá direito a uma degustação com open bar e petiscos, mas sem anunciar quais cervejas estarão disponíveis ali. Podem ser todas as cervejas disponíveis no evento, mas você também pode estar pagando 200 reais a mais em um ingresso para beber as cervejas mais baratas do festival. O que importa é que você é VIP!

Tudo bem… Pode ser um grande mimimi meu por estar perdendo o “clubinho”, mas penso que ao chamar de evento cervejeiro, o foco deveria ser a evangelização das cervejas artesanais e a orientação do consumidos. Mas com preços de stands que desestimulam os cervejeiros e áreas VIP que segregam um grupo, começo a dar razão àqueles que implicam com os cervejeiros que usam ternos…


Nicholas Bittencourt. Analista de sistemas, nobre bacharel em Direito, fotógrafo, cervejeiro e blogueiro. Quando sobra tempo, também faço pipoca.

Comentários

  • 20/09
    12:30

    Infelizmente é um processo natural. O mercado cresce e aparece gente que não é do setor e acaba aproveitando a onda. Acontece nos eventos e está acontecendo nas cervejarias. Ou, quem tem 1 milhão de reais para montar uma? Veja o tamanho dessa Fagga.
    Por um lado culturalmente não valorizamos nada local. O bonito é o Mondial de La Biére que veio do Canadá.
    Por outro o excesso de regulamentação (alvarás, taxas, autorizações, licenças …) que impede que um reles mortal organize alguma coisa.
    E concordo com você, um festival de cerveja que precisa de atrações musicais para se sustentar, eu passo. Belo post!


  • Infelizmente é isso mesmo Nicholas.
    A cerveja é moda.
    Mesmo querendo que isso acontecesse, a esperança é que fosse de outra forma, sem essa frescurada e $$$$ rolando.
    Minha sugestão é voltar ao início e fazer eventos simples, envolvendo o público e expondo as cervejas e cervejeiros, mesmo que tenhamos que correr alguns riscos.
    Parabéns pelo post!


  • 20/09
    17:11

    Grande Nicholas, tudo bom?

    Eu considero um processo natural, ao passo que o mercado ganha força outros promotores de eventos enxergam a possibilidade de aliarem duas ou mais temáticas em um evento que ofereça cervejas artesanais.

    Na minha opinião isso só fortalece o nosso movimento, muitos participantes, do Beer Experience por exemplo, terão seu primeiro contato com a cerveja artesanal assistindo ao show do seu artista favorito.

    O público e as cervejarias vão aprender, com o tempo, a selecionar o perfil do evento que mais lhes agradam, assim como as nossas queridas cervejas temos que ter variedade para aprender a fazer as nossas escolhas.

    Para mim, o que me atrai em um festival é cultura cervejeira. É assim trabalho na conceituação do IPA Day e nas outras festas que vamos apresentar nos próximos meses. Nossa proposta é oferecer uma aula de cultura cervejeira muito divertida, acompanhada de música e comidas excelentes, sempre apresentando as cervejas como as protagonistas da festa.

    Alias, você ainda nos deve uma visita! rs

    Grande abraço e um brinde ainda maior!


  • 20/09
    17:45

    Curralzinho NÃO! :D


Leave a comment