12/12/14 | Opinião

Na busca por inovação, estamos fazendo cervejas iguais às outras

O mercado cervejeiro passa por um momento delicado, já que as cervejarias hoje se destacam principalmente pela capacidade de inovação e lançamento de novos produtos. Mas num mundo onde inovar a cada lançamento é quase um requisito, será que essa prática é sustentável, a ponto de não acabarmos fazendo mais do mesmo?

Um exemplo prático desses acidentes foi anunciado essa semana pela Cervejaria Colorado. Sua produção para a comemoração do aniversário de 5 anos do Bar Brejas, a Carambreja, uma saison com carambola, é muito similar a outro lançamento realizado este ano pelo cervejaria 2Cabeças, a Caramba!, em colaboração com a Stillwater.

saison-caramba-carambreja

Não podemos fazer alegações levianas de plágio ou homenagem entre os lançamentos, pois as decisões sobre o lançamento de uma cerveja são tomadas muito antes de iniciar o processo da panela e não sabemos quando as cervejarias começaram suas idéias. De qualquer forma, o que seriam produtos únicos agora dividem um público que procura por novidades.

Se você acha que isso é um problema específico da cerveja, está enganado!

Na sociedade atual, temos o mesmo problema no mundo da moda, com um grupo de indivíduos que querem fugir do lugar comum. Os hipsters, como são conhecidos, ao tentar romper com qualquer regra de estila da sociedade, acabaram se tornando um grupo com regras bem definidas: barba grande, camisa xadrez, bermuda jeans acima do joelho, mocassim marrom e touca na cabeça.

Ao pesquisar o motivo dessa redução ao comum, o matemático Jonathan Touboul, da Collège de France in Paris, elaborou o estudo “O efeito hipster: Quando anticonformistas são muito parecidos”. Como publicado na Revista Galileu,

um grupo de indivíduos que tenta fugir das tendências da maioria acaba fazendo exatamente a mesma coisa que ela. Por não possuir tempo para analisar o que será “normal”, fica difícil definir o que é “diferente”.

Dessa forma que acabamos fazendo as mesmas cervejas que todo mundo faz, ao tentar criar um produto único no mercado. E assim temos uma invasão de Sessions, Imperiais, Wood Aged e afins, resultado em cervejas iguais às outras, quando deveriam aparecer nas prateleiras como produtos únicos.

Talvez fazer o normal seja realmente inovar hoje em dia… Que tal ir pra panela fazer uma Pilsen?


Nicholas Bittencourt. Analista de sistemas, nobre bacharel em Direito, fotógrafo, cervejeiro e blogueiro. Quando sobra tempo, também faço pipoca.

Comentários

  • 12/12
    10:37

    Concordo contigo Nicolas, hj em dia ser hipster é moda, e tem muita gente(ou empresas) tentando reinventar a roda. Grande post, parabéns.


  • 12/12
    11:00

    Com este ponto de vista, todas as cervejarias que produzem pumpkim ales fazem plágio da primeira cervejaria a produzir o estilo?!


  • 12/12
    11:30

    Texto reducionista. Partiu de uma boa polêmica mas depois fugiu da discussão. Se seguirmos uma lógica da tal inovação reducionista, nada mais há para criar. Que tal você se aprofundar na comparação entre a Carambreja e a Caramba? Maltes, lúpulos, processos, receitas, sabores, florais, amargor, teor alcoólico? E que tal ouvir a 2Cabeças e a Colorado/Brejas?
    Eu continuo achando que cervejas brassadas com ingredientes quase similares podem resultar em produtos diferentes. Há centenas de fatores que podem torná-las distintas.
    Viva a vida!


  • Sabe que sua ideia poderia ser levada ao pé da letra. Fazer uma pilsen, saborosa e sem defeitos é um desafio muito maior que “inovar” em algumas ales. Basta experimentar as “diacepilsen” Cauim pra perceber isso.


  • 12/12
    12:22

    Acho bacana a reflexão meu querido, mas acima de qualquer discussão a respeito dos caminhos que as cervejarias escolhem seguir, acho que está um questionamento: A cerveja é boa?

    Isso, pra mim, está acima de qualquer coisa. Se tivermos 10 saisons com carambola e todas forem ótimas, serei grato por isso.

    Uma das cervejas que mais gostei no Mondial, foi a Oktoberfest da Bodebrown, que é simplesmente uma Oktoberfest MUITO bem feita. Mas também adorei beber, mais uma vez, a 4blés, cerveja complexa com uma cacetada de maltes e ingredientes inusitados.

    É isso, abraço ;)


  • 12/12
    13:34

    Carlo Giovanni Lapolli E desde quando não se pode fazer o mesmo estilo de cerveja? Usar os mesmos ingredientes. Não acho que seja plágio, e sim mera coincidêndia. Aliás, isso talvez seja fruto da moda no ingrediente inusitado. Não é o caso destas duas cervejas, mas discordo muito dessa moda de querer colocar qualquer ingrediente na cerveja só pelo fato de ser o primeiro a fazer isso. É muita modinha…Uma ou outra, vá lá, mas uma cervejaria não precisa fazer receita nova ou lançar produto sempre com um ingrediente que nunca foi usado e fazer isso só por marketing. Vc toma tripel de dezenas de cervejarias belgas, com basicamente os mesmos ingrediente e surpresa! Elas são diferentes entre si. Cada uma com sua personalidade.


  • 12/12
    13:52

    Inovar na manipulação e cultivo de leveduras, poucos querem, né?
    Por isso amo as da Bamberg!


  • 13/12
    00:58

    Muito bacana o artigo, mas eu ainda acho que o principal problema com as “cervejas especiais” é justamente se tratar mais de modismo do que de um movimento em si.
    O que acarreta no fato de o consumidor dar pouca (ou nenhuma) atenção ao que vc mencionou.
    Exemplo disso é o fato de todo mundo achar que milho na cerveja é algo negativo. Mas faz uma Cream Ale com milho e dá pra um sujeito desses e ele nem vai saber o que tinha ali dentro.
    Logo, se o consumidor não liga, e não cobra, não fala com o produtor, nada acontece.


  • 13/12
    22:41

    Concordo com Bruno, Carlo e cia ltda… Discutir inovação a parti do exemplo uilizado é meio complicado. Ambas tem carambola, mas são bem diferentes entre si.


  • 14/12
    10:13

    Excelente post, ainda mais se levarmos em conta que no afã de se fazer o novo, muitos se esquecem que o mercado de cervejas tidas como especiais é insignificante se comparado com as mainstram. O lógico seria voltar às panelas e fazer uma pilsen que realmente possa ganhar o gosto do brasileiro que curte as “brahmas” da vida, ainda mais, levando-se em conta que o paladar do brasileiro não é chegado à amargor.


  • Já havia respondido no Facebook, mas faço novamente aqui, pra não deixar dúvidas.
    Antes de pensarem em “plágio”, gostaria que soubessem que a ideia de fazer uma cerveja usando a combinação carambola E MANJERICÃO (portanto, a proposta já é diferente) foi pensada pela Fabiana, sócia do Bar Brejas, desde o nosso segundo ano de atividade. Já o projeto com a colorado começou a ser discutido antes do lançamento da 2Cabeças Caramba, nem sabíamos dela quando começamos a desenhar a CARAMBREJA. Lançada a Caramba, a Colorado conversou pessoalmente com o pessoal da 2Cabeças explicando toda a história, no que todos entenderam. Adoramos a 2Cabeças Caramba! Não achamos que só porque produtos usam os mesmos ingredientes seja “plágio” (se fosse assim, o que seriam das Pumpkins? Hehehehehe). Esperamos que as pessoas provem as duas cervejas e nos contém o que acharam, fazendo críticas propositivas para que melhoremos os produtos. Um abraço!


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