06/03/14 | Opinião

O problema é o milho ou o transgênico?

Nesta última semana, a revista Carta Capital publicou em seu site uma matéria sobre o uso de transgênicos na produção de cerveja no Brasil. Como quase 90% de nossa produção de milho é transgênico, é natural que cervejarias usem esse insumo barato para reduzir custos da produção, classificando como cereal não maltado.

cerveja-de-milho

A matéria, é claro, explodiu no meio cervejeiro! Através das redes sociais, cervejeiros, bebedores, blogueiros e todo mundo que conhece um pouco mais sobre o assunto compartilhava o artigo, como querendo dizer que cervejarias orquestravam uma morte lenta e dolorosa através da mutação genética.

Mas será que a alavanca que impulsionou esse compartilhamento é realmente associada aos transgênicos?

Os cervejeiros brasileiros sofrem de um mal chamado “milhofobia”, reduzindo, em uma escala de qualidade, toda e qualquer cerveja que use milho em sua formulação. Ao mesmo tempo, nenhuma cervejaria artesanal se propõe a fazer uma cerveja do mesmo estilo com uma qualidade técnica superior às Brahmas, Skols e afins…

Se você não bebe cerveja com milho, você é tido como um esclarecido nesse meio. Beber cerveja de milho é motivo de chacotas ou ainda uma mostra que você está sem dinheiro para compras cervejas artesanais. A segregação social chegou ao rótulo da cerveja que está na sua mesa do bar.

O importante é beber cerveja puro malte ou com qualquer outro adjunto, desde que não seja milho, seja qual for sua função na cerveja.

Outra observação que esse compartilhamento todo se deve unicamente ao uso do milho na cerveja: quantas pessoas anunciaram que deixariam de comer pipoca, angu, pamonha ou qualquer outro alimento artesanal feito com milho? Como disse acima, 90% do milho brasileiro é modificado geneticamente e certamente vai chegar a esses produtos. Então porque você não está atacando o Cheetos e o Fandangos?

O problema é que faltava um argumento para atacar as grandes cervejarias, que dominam 99.999% do mercado brasileiro. Já que não havia argumentos para convencer um brahmeiro a mudar de rótulo (como se fosse obrigação mudar seu gosto pessoal), o uso de transgênicos veio bem a calhar.

Agora podemos dizer que as grandes cervejarias querem sua morte dolorosa pelo crescimento de diversos tumores pelo corpo, como no rato alimentado com milho transgênico.


Nicholas Bittencourt. Analista de sistemas, nobre bacharel em Direito, fotógrafo, cervejeiro e blogueiro. Quando sobra tempo, também faço pipoca.

Comentários

  • Ótimo artigo!


  • Ótimo comentário! Mais um exemplo de como a ciência pode servir para reforçar nossos preconceitos.


  • 06/03
    17:20

    Grande Nicholas! Ótimo ponto de vista.


  • 07/03
    03:03

    Realmente a matéria foi tendenciosa, mas acredito que nesse briga contra o monopólio devemos usar as armas que temos. Os americanos usaram bastante essa crucificação milho e deu muito certo.

    http://youtu.be/gN6OyyZejuU


  • 08/03
    11:50

    Gentes,
    quem quiser brigar por cervejas sem milho, que o faça, mas a matéria é tremendamente tendenciosa: o milho transgênico é idêntico, do ponto de vista nutricional e como substrato para fermentação, ao milho convencional. Além disso, não há mais milho convencional em quantidade suficiente (e livre de grãos transgênicos na mistura) para suprir as grandes cervejarias. Portanto, não é uma decisão delas, é uma imposição.
    Há ótimas cervejas que levam cereais não maltados pelo mundo afora. Isso não é um impedimento. Se nenhuma de nossas cervejas para grande público é boa só porque leva milho, sei não… Há boas cervejas produzidas em massa e péssimas cervejas artesanais. É preciso ser menos dogmáticos nisso.
    Bom, pra terminar, a notícia muito mal escrita na Carta Capital e, na verdade, muito velha: o assunto já havia sido publicado e discutido a mais de um ano atrás. leiam no nosso blog: http://genpeace.blogspot.com.br/2012/10/cerveja-transgenica-mais-um-produto.html


  • […] cerveja e faz algumas considerações sobre o assunto. Este artigo foi primeiro publicado no blog Goronah, de autoria do colunista, e reproduzido aqui com […]


  • […] O Nicholas Bittencourt analisa a polêmica dos transgênicos nas cervejas de massa. […]


  • […] do barulho causado pelo suporto uso de milho transgênico nas standard lagers brasileiras, o Procon do Rio de Janeiro autuou diversas cervejarias que, em seus rótulos, não descrevem […]


  • 08/05
    17:19

    Sempre que posso, evito tomar essas cervejas. Mas, obviamente, não vou ficar inventando graça quando estou em um grupo com amigos.
    Acho que a questão é a gente brigar por qualidade


  • 14/05
    13:21

    O que vejo como problema é a informação equivocada. Cerveja com milho tem a sua classificação no BJCP. Basta a industria colocar o nome correto do estilo que a discussão acaba.
    Cerveja de milho tem gosto de milho.. Cerveja de trigo tem gosto de banana. Cerveja de malte torrado tem gosto de café. Porque complicam tanto? O consumidor, quando bem informado, escolhe o que quer comprar pô.

    Para recordar…

    1B. Standard American Lager

    Aroma: Pouco a nenhum aroma de malte que…….. O aroma de lúpulo pode variar de nenhum até uma presença leve….

    Aparência: De cor palha muito clara até amarelo médio. Colarinho branco, bem espumante e que raramente persiste. Muito límpida.
    Sensação na Boca: Corpo muito leve devido à alta quantidade de adjuntos como arroz e milho. Bastante carbonatada com uma leve picância de gás carbônico na língua.

    Impressão Geral: Muito refrescante e que mata a sede.

    Ingredientes: Malte de duas ou seis fileiras com uma alta porcentagem (até 40%) de adjuntos como arroz ou milho.

    Esse é o estilo das Brahmonas. Tem no mercado. Compre se quiser. Beber muito ou beber bem, a opção é do freguês…..


  • 28/05
    18:19

    Acompanhando a discussão e pegando o gancho do Guimas, vejo que também é preciso que nos posicionemos de que lado da mesa estamos. Afinal, quem define o quê? Todos os grandes trustes das macrocervejarias optaram por se submeter às regras do BJCP? Não. Esta entidade nasceu dentro das Associações de Cervejeiros Artesanais na década de 80, ou seja, seu poder de legislar sobre a nomenclatura que damos aos diferentes estilos de cerveja é altamente relativo. Submtem-se a ela aqueles que procuram pelo seu respaldo. Infelizmente, o poder econômico tem sua própria lógica, por vezes, subvertendo qualquer outra. Aos de MG, sabiam que fora daí, no resto do Brasil o queijo minas que as pessoas conhecem ou é o frescal, branquinho, ou aquele pastiche horroroso que nos grandes mercados vendem como Minas-padrão? Que padrão é esse? Quero meu pão de queijo com queijo curado e não chamo aquela coisa pasteurizada de queijo minas. Mas a questão é: não há a mínima hipótese de eu montar uma entidade que dirá o tipo de queijo que determinados produtores batizarão como minas, se esta entidade não puder brigar politica e economicamente com os grandes queijeiros. Devemos continuar a divulgar o que é uma verdadeira pilsen, mas achar que escrever american lager na garrafa fará com que se busque a pilsen original é besteira. O cara dirá: “ah, então isso é uma pilsen? Gostei não, muito forte, prefiro então a minha american lager”.


  • 20/06
    19:50

    Milho transgênico do Lula.


  • […] http://goronah.blog.br/2014/opiniao/o-problema-e-o-milho-ou-o-transgenico […]


Leave a comment