23/10/17 | Economia e Mercado

Cerveja artesanal brasileira viaja 895km da cervejaria ao copo do consumidor

Durante uma palestra de História de Cerveja, do Curso Avançado de Tecnologia da Cerveja (ICB), o professor Martin Zarnkow, da Universidade Weihenstephan, afirmou que a cerveja alemã viaja em torno de 300km da cervejaria até o copo do consumidor. Trazendo para nossa realidade, fui descobrir quanto a cerveja artesanal brasileira viajaria antes de ser consumida.

Comboio de caminhões

O Brasil é um país enorme! A distância de Norte a Sul do país chega a 4400 quilômetros, então é mais que esperado que a distância percorrida por uma cerveja esteja nessa magnitude, com as principais cervejas do país situadas no eixo Sul e Sudeste.

Analisando 3016 registros de consumo, obtidos através da ferramenta Untappd, cheguei a uma média percorrida de 895 quilômetros entre a cervejaria e o consumidor. Essa distância, a partir do Rio de Janeiro, vai além de Florianópolis, chega quase a Goiânia e fica a 300km de Salvador.

Onde consegui os dados para isso?

O primeiro passo foi buscar uma fonte de dados que pudesse me indicar onde estão as cervejarias e onde o consumidor está bebendo a cerveja. O Untappd, apesar da tendência de apresentar apenas cervejas artesanais, se mostrou a fonte mais confiável.

Durante um fim de semana, monitorei todos os checkins realizados em um raio de 25km das capitais brasileiras, para identificar onde o brasileiro está bebendo cerveja. Descartando locais genéricos, como os checkins realizados na cidade, selecionei até 6 localidades por município ou redondezas, de acordo com o volume de checkins realizados.

Foi a partir dessas localidades que busquei os dados que foram utilizados para os cálculos que apresento a seguir. Usando uma ferramenta para desenvolvedores liberada pelo Untappd, busquei os últimos 100 checkins, ou o limite disponível, dos locais selecionados, totalizando 4648 cervejas consumidas.

De forma a sanitizar a amostra, foram descartadas todas as cervejarias que não possuíam localização definida. Teste estudo também ficou restrito às cervejas brasileiras, de forma que as cervejarias com localização fora do território nacional foram descartadas. Ao final da limpeza, permaneceram 3016 registros, resultantes de 1075 rótulos, de 241 cervejarias distintas, consumidas em 1039 localidades.

Calculando a distância entre a cervejaria e o copo

A vantagem de usar uma base como o Untappd é que a latitude e a longitude de cada cervejaria e bar estão presentes na maior parte dos checkins. Infelizmente, algumas cervejarias não possuem essa informação preenchida, o que me forçou a descartar esses checkins do resultado final. Estou olhando para vocês, ciganas!

Para calcular a distância, a partir da latitude e longitude, utilizei a fórmula Haversine, também conhecida como a Lei Esférica dos Cossenos. Essa fórmula e sua aplicação no Excel é melhor explicada no blog BlueMM.

Estados do Norte são os mais prejudicados

Quando olhamos a distância média percorrida pelas cervejas, estado a estado, percebemos as diferenças de desenvolvimento entre regiões se tornam mais evidentes. Enquanto o Rio Grande do Sul possui uma distância média de 77km, fazendo com que o consumidor tenha acesso a cervejas mais frescas, o Amazonas tem uma média de 2848km. Na sequência temos o Acre, com 2718km, e o Maranhão, com 2677km.

Os estados que possuem as menores médias são conhecidos pela presença abundante de cervejarias. São Paulo vem em segundo lugar, com 208km, e Minas Gerais em terceiro, com 252km.

O maior problema desta distância é que as cervejarias, por 2 ou 3 dias, muitas vezes não possuem controle sobre as condições de transporte e armazenagem de seu produto. Estradas esburacadas e o calor no trajeto influenciam a cerveja, que pode ter suas características alteradas em função do choque e sucessivas pasteurizações.

10% do consumo acontece a menos de 100km das fábricas

Seja pela presença de muitos brewpubs na amostra de dados, ou pelo consumo regional de algumas cervejarias, encontrei quase 700 registros onde o consumidor bebeu sua cerveja a menos de 100km da cervejaria. São cervejas que, por terem viajado menores distâncias, podem se encontrar em melhores condições de consumo.

Ao mesmo tempo, algumas cervejarias possuem uma cobertura que alcança praticamente todo o país. Do Rio Grande do Sul, a Seasons Craft Brewery (127 registros) é consumida em distâncias que variam de 5,78km a 3208,53km.

No outro extremo, temos cervejarias que possuem o consumo extremamente localizado. A pernambucana DeBron Bier (29 registros) possui uma região de consumo que varia de 5,27km a 625,56km da fábrica.

Bar de fábrica, o melhor lugar para uma cerveja bem fresca

Quando analisamos as amostras com uma visão a partir do local onde a cerveja foi consumida, se destacam os bares de fábrica com as menores distâncias médias. Esse valor, no entanto, pode ser enviesado, a partir do momento em que cervejarias ciganas utilizem endereços próximos aos bares como referência no Untappd, não refletindo necessariamente a localização de suas fábricas.

Entre as cinco localidades com a menor distância média para as fábricas onde são produzidas suas cervejas, encontramos 3 bares de fábrica. A Cervejaria Dogma (São Paulo-SP), vem em primeiro lugar, com uma média de 2,19km. Em seguida, a Raffe Cerveja Artesanal (Natal-RN) possui uma média de 8,26km. Depois, o Ateliê Wäls (Belo Horizonte-MG), com 11,91km.

Também se destacam os bares localizados em cervejas regionais. Ambos de Porto Alegre, o BierMarkt Vom Fass e o Locals Only CB possuem distâncias médias, respectivamente, de 22,82km e 73,69km.

Para pesquisas futuras

Apesar de mostrar números significativos sobre a distribuição de cervejas artesanais no território nacional, esse estudo pode ser melhorado através da obtenção das reais localidades onde as cervejas analisadas são produzidas.

Também um rastreamento em relação a percepção do consumidor pode indicar se a distância percorrida realmente afeta a qualidade da cerveja, ou se esse problema não existe.


Nicholas Bittencourt. Analista de sistemas, nobre bacharel em Direito, fotógrafo, cervejeiro e blogueiro. Quando sobra tempo, também faço pipoca.

Comentários

  • 26/10
    15:10

    Pbns, poderia até conseguir um grau de mestre em estatística com mais alguns detalhes.
    Só sei que se quero cerveja “fresca” vou direto à fonte. Na minha cidade, afortunadamente, existem várias cervejarias artesanais. É atrás delas que eu vou


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