02/03/17 | Opinião

New England IPA: o lado negativo do estilo da moda

Conhecer um novo estilo de cerveja é sempre uma experiência diferente, mas conhecer o lado negativo de um estilo é sempre algo desagradável. Durante este Carnaval, vi o lado negro da cerveja da moda, a New England IPA, e detestei!

O estilo New England IPA ganhou destaque no Brasil em meados de 2016, principalmente por seu foco em qualidade e preços altos, mas já era valorizada nos Estados Unidos desde 2003, com um impulso em 2011 devido a ampliação da cervejaria The Alchemist, que produz a Heady Topper.

Aqui no Brasil, diversas cervejarias já estão com sua leitura do estilo e, a medida que foram chegando no Rio de Janeiro, fui conhecendo seus rótulos, principalmente em chopp, que torna o consumo mais acessível que os preços praticados ao consumidor final que a lata, embalagem preferida das cervejarias para o estilo.

Durante o Carnaval, levei para a praia duas latas de New England IPA que tinha na geladeira. Ao consumir a primeira, direto da lata, foi tudo como esperado no começo, com uma porrada no aroma, frutado presente e tudo mais. No entanto, a medida que chegava no fim da cerveja, mais desagradável ela se tornava, com a adstringência aumentando a níveis indesejados.

Sim, a cerveja estava tomada por lúpulo em suspensão. Por não ser um estilo filtrado, é possível que o dry hopping seja levado a linha de envase e, consequentemente, a cada lata distribuída. O que seria uma característica positiva da cerveja, para preservar aromas, acaba por estragar a experiência do consumidor.

Essa crítica é feita mesmo nos Estados Unidos, berço do estilo. Ray Daniels, fundador do programa Cicerone, de apreciação de cerveja, conta que ao se servir de uma Heady Topper exclamou “O que é essa bosta?” (tradução livre), quando viu restos de levedura e lúpulo em suspensão.

Um argumento em defesa da característica, se podemos chamar assim, é que isso também é encontrado, a sua maneira, nas cervejas de trigo e em cervejas fermentadas na garrafa. Muitos cervejeiros não gostam de beber a levedura que fica decantada nas garrafas e optam por não servir essa parte ao beber.

Nas NE IPA, a lata como embalagem padrão acaba sendo prejudicial ao consumo. A própria Heady Topper orienta o consumidor a não usar um copo. “Drink from the can.“, estampa a cervejaria em sua lata. Dessa forma, a experiência seria similar a que tive, principalmente em consumidores que estão degustando o estilo pela primeira vez, já que não conseguimos perceber quando estamos chegando na “sujeira”.

Algumas cervejarias parecem ter percebido o problema e investido em novos filtros, de porosidade maior. Dessa forma, partículas de lúpulo e aglomerações de levedura são retidos antes da linha de envase, mas o impacto no aroma e na turbidez da cerveja é reduzido, mantendo as características principais do estilo.

Gringo Pour: esquecemos para que serve o colarinho?

Parece que outra moda veio acompanhar as New England IPA. O gringo pour, como está sendo chamado no Brasil, tem como característica encher o copo até a borda, sem que a cerveja faça a formação do colarinho. Veja no Instagram como funciona isso.

Não precisamos discutir a importância do colarinho na cerveja, então me pergunto porque fazer isso consigo mesmo na hora de beber uma cerveja?


Nicholas Bittencourt. Analista de sistemas, nobre bacharel em Direito, fotógrafo, cervejeiro e blogueiro. Quando sobra tempo, também faço pipoca.

Comentários

  • 02/03
    09:23

    Quais foram as cervejas? Só tive essa experiência com as NEIPA da Mistura Clássica.


  • 02/03
    11:27

    Bom texto! Mas discordo que este seja um problema das NE IPAs. O que ocorreu aqui no RJ é o que podemos chamar de “ponto fora da curva”. Acredito que ambas as cervejas que você bebeu foram produzidas pela MC, que teve problemas no envase de latas realizado pela empresa DaLata no fim do ano passado. Pela informação que eu tenho, as cervejarias ciganas impactadas acabaram assumindo a culpa (que não tinham) e tb parte dos prejuízos, para tentar amenizar o impacto negativo sobre os consumidores. Enfim, a mim parece que o problema problema relatado é muito mais um erro operacional do que um ponto negativo do estilo em si.


  • 02/03
    13:18

    Bom relato da experiencia!
    Ontem experimentei 1 NE IPA e 2 “New England Inspired” IPAs, as unicas que encontrei tal adstringencia foi nessas duas que seguem tecnicas das NE IPA, a primeira estava sensacional.
    Acredito que com a moda, vem junto muita cerveja sem técnica, tentando o estilo, sendo lançada no mercado, causando esses problemas, que na minha opinião, fazem sentido! Lúpulo em suspensão = adstringência!
    Mas tem quem sabe fazer e faz direito, a que eu experimentei ontem era nova para mim, estava sensacional!


  • 02/03
    17:19

    “principalmente em chopp” podia trocar por principalmente em barril, principalmente em ‘chopeira’. Essa palavra, chopp, tem que ser menos, nem ser na verdade, utilizada em canais de divulgação, enquanto continua disseminando ela a população em geral continua achando que cerveja e chopp não são a mesma coisa.


  • 06/03
    17:34

    Discordo, nao vejo problema na cerveja ser turbida porém limpa, as dogmas,hocus pocus e a seiva nenhuma delas apresentava floculos de lupulo e nem de levedo.
    e sobre o “gringo pour” é pra ganhar 1 gole a mais mesmo kkkk porque tem gente que exagera no colarinho.


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